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21 fevereiro 2011

O inconsciente chama por mim II


(A reabertura de uma história.)

Ao fechar a porta e ouvir aquele som de um encerrar de capítulo, sentiu-se uma pessoa nova.
Outrora queria seguir outro caminho, abandonar tudo aquilo que tinha construído e segurado com toda a força.
Continuava a duvidar das suas escolhas…”será que isto é mesmo o que eu quero?”.
Permanecia confusa e sempre que podia e tinha oportunidade, o seu pé direito recuava e esta pensava, outra vez, em mudar de rumo.
Os seus mundos tornavam-se cada vez mais dependentes um do outro. Isso assustava.
Sentia-se segura, mas ao mesmo tempo, não queria estar presa. Acorrentar o seu coração a alguém metia-lhe medo, dava-lhe vontade de fugir.
Sonhou sempre em percorrer vários sítios, conhecer pessoas diferentes, imaginou descobrir algo de novo…todas essas coisas sem preço.
“Por que não o fazemos os dois, quero partilhar tudo isso contigo.”
Ela parou a meio do caminho, estava pronta para entrar no carro…mas isso não lhe saia da cabeça. As palavras doces que ele lhe tinha proferido latejavam-lhe na mente.
Era por isso que ela recuava sempre.
Era difícil aceitar uma nova vida sem aquele pilar, ele era a sua força.
Será que ela queria mesmo deixar tudo aquilo, como tinha idealizado anteriormente?
Queria mudar a sua vida, isso era certo, mas será que abandonar tudo isto seria a melhor escolha?
O seu coração batia, mantinha-se firme sempre que pensava que era isso que realmente queria, mas amolecia, enfraquecia de tal forma ao pensar no passado e em todas aquelas boas memórias.
Por mais que quisesse negar, aquilo que ela tinha tentado evitar durante tanto tempo acabará por acontecer. Estava ligada a ele e talvez fosse para sempre.
Era com ele que imaginava um futuro, uma vida a dois, algo que antes lhe metia medo, pavor, angústia. Era devido a isso que hesitava.
Sentiu os seus olhos brilharem, ficou sem forças nas pernas e caiu no chão.
O seu corpo tombou no alcatrão da estrada, sentiu o peso dos seus sentimentos esmurrarem o seu coração.
Ele era mais do que ela podia imaginar…ele significava mais do que ela podia desejar e ela já não podia voltar atrás…ela já não podia fugir…eles estavam amarrados, unidos um ao outro.

13 agosto 2010

"Como tens andado?"

Tenho saudades dos velhos tempos.

Estou cansada e preciso de estar em paz.
Passo horas a ouvir música e a olhar para o vazio.
Mergulho nos meus pensamentos e deixo-me ir sem rumo...

04 julho 2010

O inconsciente chama por mim I

(O encerrar de um capítulo.)


"No matter what happens now, you shouldn't be afraid."
Radiohead - Videotape.

Ela queria largar tudo, pegar nas coisas e apanhar um avião. Foi o que fez.

Sem pensar duas vezes, agarrou em algumas peças de roupa e pôs na mala, pegou em 50 euros e meteu no bolso e o próximo passo seria dirigir-se ao aeroporto e desaparecer.

Precisava de um tempo só para ela e as suas ideias.

Longe da família, dos amigos…e dele.

Esperou a vida inteira por aquilo.

Andava a adiar, a esconder-se debaixo de um mundo de fantasia e conto-de-fadas, tinha sido cobarde, mas agora, finalmente, tinha ganho coragem suficiente.

Era a parte mais inconsciente da sua mente que alimentava todo aquele sonho.

Tinha sido demasiado hesitante, tentou esconder aqueles pensamentos e pensar que era feliz assim, mas iludia-se.

Cada dia que passava sentia-se cada vez mais encurralada, cada vez mais frustrada e sem saída.

Aquela não era a vida que ela sempre tinha idealizado, muito pelo contrário, estava-se a tornar um verdadeiro fracasso.

Tinha chegado o seu grande dia, aquele dia pela qual tinha esperado e sonhado uma vida inteira.

Estava ali para fazer renascer aquela fantasia enjaulada no calabouço do medo.

Para ela, a vida não era feita de meras coisas, trivialidades e convencionalismos, para ela a vida era muito mais que isso.

Não queria saber o que iriam pensar ou dizer, claro que a iriam encarar como sendo uma sonhadora e desvairada, cheia de ilusões e ideias loucas, mas isso é que a fazia sentir-se viva.

Era esperado sentir nervosismo e algum medo, ou que até se fosse arrepender e voltar atrás minutos mais tarde. Encontrava-se serena e decidida. Pegou nas chaves de casa, foi automático. Fechou a porta sem olhar uma última vez para o que iria deixar de agora em diante. Sabia que não se iria arrepender.

Não sabia bem como iria ser a sua vida, só sabia que queria muito fazer aquilo.

Estava a abandonar tudo em busca da tão desejada felicidade.


07 abril 2010

instantes adornados 1*

Há alturas em que estou sozinha, absorvida na minha almofada e nos meus lençóis.

A mente vagueia. Penso. Penso em tudo…na vida, no passado, no futuro,

“O que irei eu fazer com a minha vida?”

O quarto está silencioso, mas a minha mente permanece tão ruidosa e circundante, cheia de pensamentos, frases, memórias e sons.

É nestas alturas que penso em coisas que não me passariam pela cabeça.

O afogar dos pensamentos, no tumultuoso mar das dúvidas e das questões, a clandestinidade do silêncio, a melodia da ausência, num fechar de olhos vejo o esfumar de um agigantado novelo de hesitações.

“…era uma vez ninguém que já sabia que alguém queria ser.”

13 março 2010

Os Expectantes.


A vida é uma sala de espera.

Estamos estendidos no sofá das dúvidas a olhar para o vazio da televisão dos sentimentos; não falamos, não pensamos, não sentimos: esperamos, simplesmente.

E o som do silêncio acompanha-nos, os olhos reagem lentamente ás luzes que invadem a sala fria, estática. O cérebro nada alcança, apenas espera.

Os dois no sofá, sem nos tocarmos, distantes e isolados.

Esperamos que o programa acabe, esperamos que um de nós decida mudar de canal, esperamos que alguém diga algo, esperamos que aconteça alguma coisa…

Esperamos e esperamos e esperamos.

Passamos horas infindáveis á espera…

Nada acontece.

Ninguém reage, ninguém fala, ninguém olha, ninguém…nada.

É a expectativa, o medo, a apatia, a solidão, a esperança, o sonho…a espera!

Esperamos sempre alguma coisa, em vão ou não, acabamos sempre por esperar, não sabemos bem o quê nem porquê, mas aguardamos.

Esperamos o insólito, o impossível, o imprevisto…

Esperamos o habitual, o amanhã, o futuro…

Esperamos…

17 fevereiro 2010

Crónicas de um estranho coração.


(Parte I)
Ouço os teus pequenos delírios, aqueles com os quais sonhas a toda a hora.
Porque é que tens de ser assim?
Eu vivo dentro de ti e tenho que aturar todas essas deambulações, essas ferveduras e irrupções.
Será possível viver dentro de pessoa mais complicada que tu?
Estou sempre a ouvir ruídos abstractos, embates descontrolados…apertas-me com força e tentas conter toda essa ânsia de viver.
Metes cá dentro tudo e mais alguma coisa, isto não é uma dispensa onde se guardam todos os entulhos!
Depois sou eu que sofro devido a toda essa sórdida amabilidade!
Quando menos esperas, dão-te pancadinhas, espicaçam-te e usam-te assim de uma maneira desumana e cruel.
Eu…eu sujeito-me a isso. De tão frágil e pequeno que sou, eu é que tenho que ser um guerreiro e tentar não quebrar.
Sabes que não durará por muito tempo…se não me ajudares não terei força suficiente, afinal de contas, não sou nenhum herói ou algo sobrenatural…sou apenas um débil e ténue coração…
o TEU coração!

29 janeiro 2010

Corrói-me a alma.

Oiço vozes vindas de outrora, vejo nuvens de fogo em pedaços de chuva pesada.

As excessivas dores roem-me os sentidos. Há sempre um bocado de frio que me congela o coração. Voltei a ver aquela entediante escuridão…deixei de sentir o calor e a firmeza.

Aquelas imagens que desvendavam algo promissor quebram-se agora.

O espelho que anteriormente me mostrava perfeitas imagens racha-se por completo, divide-se em múltiplas inseguranças que conduzem a um medo excessivo.

Coisas demasiado corrompidas, vincadas na destrutível mágoa…em todo aquele estéril sofrimento…coisas que me abalam por dentro.

Os pensamentos vagueiam, solitários e moribundos, andam por esta alma fora…cheios de dúvidas e insatisfações por compreender.

Acendem-se os cigarros da dolência, sentem-se os aguçados vendavais do tumultuar da nervosa vontade de me erguer…as pernas balanceiam, a escuridão da madrugada aflita cega-me a visão, o guinchar das incertezas fere-me os ouvidos…perco-me assim dentro de mim mesma…sou um matreiro labirinto, sou um castigado numa prisão…sou um marinheiro perdido em alto-mar…

sou um animal enjaulado no seu próprio ser.

30 novembro 2009

Sim, posso-me considerar REVOLTADA!


"Quem somos nós? Mas que era é esta?"

Com o passar do tempo tudo evolui, as coisas mudam.

2009 está quase a acabar, vem ai 2010.

Será melhor?...pior? Isso ninguém sabe.

Mas afinal o que sabemos nós?

Sabemos que amanhã teremos mais coisas para fazer, que alguém nos vai sorrir e que teremos que acabar o que não fizemos ontem.

Estamos perdidos neste dia-a-dia tecnológico, neste amanhecer informático e nesta noite moderna.

Dissipados por todo este resplendor modernista e futurista e cubista e abstraccionista e surrealista e simbolista e impressionista e minimalista e vanguardista…

Não temos tempo para pensar em coisas insignificantes, temos que semear mais máquinas, temos que construir mais prédios…esse é o nosso futuro.

Fingimos que somos todos livres e fazemos o que nos apetece enquanto o Estado nos tenta controlar os tostõezinhos.

Bebemos coca-cola light e comemos Mc.Donals, Burgers King e ficamos obesos.

Os deuses do Olimpo já não nos dizem nada, agora reinam os jogadores de futebol e as estrelas de cinema, é com esse tipo de coisas que as criancinhas sonham.

Já não se visionam viagens marítimas nem coisas do género “Vinte Mil Léguas Submarinas”, agora queremos alugar uma nave espacial e chegar até á lua ou quem sabe comprar um pedaço de nada em Marte.

Já não temos tempo para os amigos e a família, o trabalho é prioritário, temos que contribuir para este país.

Não acendemos os candeeiros a óleo, mas temos lâmpadas económicas a toda a hora.

Já ninguém quer saber dos Cd’s ou até mesmo da rádio, queremos é a Internet!

Sentamo-nos em bancos de plástico enquanto os cientistas ainda não encontraram cura para certas doenças.

Hoje vivemos num mundo de imagens e personagens.

Esta sociedade de hoje em dia é pouco conversadora, o que interessa é ter uma mente aberta e aceitar as novas coisas!

Mas claro não nos podemos esquecer do presunçoso moralismo, esse tem que estar sempre presente.

Sabem o que tudo isto me parece?

Uma farsa!

Continuamos a viver nesta “utopia modernista”, nesta “ficção cientifica”, enquanto milhares de pessoas morrem todos os dias á fome em todos os cantos do Mundo, enquanto milhares de pessoas continuam a ser exploradas por este Universo dentro, enquanto seres humanos continuam a criar Guerra e a matarem os da sua espécie, é isto que chamam “um futuro prometedor”?

Poupem-me a falsidade e a hipocrisia.

Enquanto o Mundo não mudar, continuaremos a viver nesta falsa prosperidade.

Acordem para a realidade!

07 novembro 2009

This is the Life


Acordar ao som de Portishead, ficar enroscada na cama até ter coragem para me levantar.
Olhar e ver mais um dia cinzento.

Sair de casa com vontade de voltar para a cama.

Sentir a agonia de ter de enfrentar mais um dia.

Fazer desenhos no caderno e cantarolar nas aulas.

Sorrir e dizer “olá” a este e àquela.

Mexer na mala e ver que me esqueci de mais qualquer coisa.

Pensar que já não aguento mais esta vida.
Por as mãos nos bolsos e dizer que “está mesmo frio!”

Chegar a casa sem fome e totalmente esgotada.

Irritar-me interiormente e mandar tudo isto á fava.

Ter saudades dele e sentir o coração apertado.

Aturar gente insuportável e bufar de descontentamento.

Bater com a cabeça na mesa e mentalizar-me que tenho que estudar.

Andar ás mensagens a toda a hora, “quando é que combinamos qualquer coisa?”

Arrumar o quarto a uma segunda-feira chegar a um sábado e vê-lo de pernas para o ar.
Ficar em casa um domingo inteiro.
Olhar pela janela e imaginar-me noutro sítio.

Sorrir com os meus amigos e sentir que os adoro.
Sentir-me emocionalmente desequilibrada e desejar fugir para uma ilha.


Uma semana, 7 enfadonhos dias, longos deprimentes anos, uma vida caótica

Afinal de contas para que serve isto tudo?

(…)


«Life makes no Sense.

The world's nothing but a lie.»

05 outubro 2009

A carta de um anónimo sonhador .


vou embora.
sim, eu vou-me embora.

estou farto de pensar e repensar, “é desta que vais conseguir ser forte?...ou vais deitar tudo a perder como sempre?!”
não custa nada, é só agarrar nas coisas e ir embora, fugir e largar tudo.
sempre soube que esta loucura constante daria frutos, que um dia seria capaz de largar tudo e todos e ir em frente!
dia e noite, a olhar sempre pela mesma janela, a ver o mesmo sol, a ir pela mesma rua, sempre a ver as mesma caras, sempre soube melhor fugir e dizer adeus.
porquê contentar-me com o “La vie en rose”, se posso muito bem seguir o lema de “Le libertin”.
a verdade é que nada disto tem razão de ser! desculpa se sou demasiado complicado, ou se sou um idealista depravado, talvez o seja…mas e então? se a vida não tem sentido porquê preocuparmo-nos? quero ir em frente e provar algo novo!
andar na estrada até não reconhecer mais o caminho, ir pelas ruas e ver caras desconhecidas, sentir outros ares e aromas…ver outras paisagens e poder dizer “é isto que eu quero, é assim que sou feliz!”
não percebes, nunca me entendes-te. nem tu nem ninguém.
fica lá no teu irrealizável “conto de fadas” que eu prefiro provar o ópio da vida!
não sabes o quanto me custa acordar todos os dias e sentir-me imensamente inútil, passar os minutos e segundos a perguntar-me o porquê de tudo isto, querer ir embora e sentir-me um animal selvático numa jaula!
se posso optar e escolher o meu rumo não me vou acobardar e contentar-me com toda esta lassidão de vida.
para mim acabou-se, já chega.
tenho plena consciência do que estou a fazer, estou a dar uma nova oportunidade a mim mesmo!
a oportunidade de saber o que é a vida, o que sou eu e o que é tudo isto…
peço-te que me entendas…quem sabe um dia não descubras o mesmo e tenhas coragem de lutar por algo melhor.
voltarei um dia, voltarei…por enquanto guardo boas recordações e boas memórias, agora levo novas esperanças e novos objectivos.


não vou mais tropeçar no vazio nem no silêncio,
vou deixar-me levar pelo instinto e pelos sonhos
”.

16 julho 2009

O Quiosque dos Horrores


“Ouço os gritos de uma criança, será que ninguém mais a ouve?”

A morte ronda-nos como uma abelha obsessiva, pronta para nos cerrar o ferrão.
Todos os dias vemos desastres a serem semeados por todos os espaços que lhe pertencem, agarramo-nos á nossa vida com unhas e dentes e não deixamos que nada nos aconteça.
Acreditamos na turva esperança de que “tudo está bem e assim ficará”.
Nunca sabemos o que nos espera…

«O vizinho do lado matou a filha de três anos e, uma vez mais, ninguém se apercebeu do que se estava a passar.
Ninguém soube salvar uma inocente criança que gritava do outro lado de uma parede, ferrava as unhas na porta e engolia as lágrimas que lhe fluíam pela face abaixo.
As televisões estavam demasiado altas, os vizinhos riam e jantavam, as crianças brincavam e a música pairava pelo andar acima enquanto a criança morria mais um bocado…e mais um pedaço.
»
- x –
«Um bebé de nove meses morreu de fome e sede enquanto a mãe procurava mais uma doze para saciar o seu vício.
O bebé ficou imensos dias sem ser alimentado, chorava e berrava, mas ninguém o acudia.
Gatinhou até á porta, chorou e gritou até ficar sem ar…mas ninguém o ouviu.
Os moradores do prédio só chamaram a policia quando o bebé já se encontrava em decomposição.»

A televisão aparece em força, as hienas do mediatismo adoram cenários macabros.
Centram-se no horror e esquecem-se das vidas em jogo.
A raiva e o desalento consomem-me.
O que será mais importante?...o sanguinário ou a vitima!?
A sociedade é tão criminosa quanto um assassino.
Procuram-se heróis e culpados, esquecem-se os inocentes e mortos.
Sim, estas notícias enchem os jornais e as revistas, um panorama que vende milhões, acrescenta picante ás audiências dos telejornais e oferece fama aos “doutores” e “mestres” que nos querem sossegar “analisando” a situação.
As velhas dizem que “deus não existe” e que o mundo é muito injusto.
Expõem-se mais meia dúzias de imaculados no “quiosque” de horrores….o que se faz, o que se escreve, o que se diz…tudo isso corre na passerelle e é dito para toda a gente ouvir.
A elite abre a boca chocada, e finge estar perturbada.
Na televisão emolduram-se as mortes destes inocentes.
No fundo, estas pobres almas continuam mortas e nada adianta.

Ninguém as ouve…ninguém as sente.
Cada vez se ouvem menos e sofrem mais…
São as almas da amargura, os inocentes do quiosque de horrores e desgraças.


Onde moram os sonhos que não chegaram a nascer (?)

(isto revolta-me…isto chateia-me…isto magoa-me.)

15 junho 2009

Caminhos achados e perdidos


o barulho dos carros a passarem, uma mãe com um bebé ao colo, restos de fumo vindos das chaminés, sonoros batuques dos saltos-altos, folhos de vestidos a esvoaçar, sorrisos e guinchos vindos das crianças, um velhote atravessa agora a rua, uma jovem senta-se na esplanada, paira no ar um cheiro a perfume intenso, um senhor buzina desenfreado e chama “camelo” ao homem do lado oposto, o suor escorre-me pela cara abaixo, desvio o olhar da rua por breves instantes, quando volto a olhar…apareces-me tu!
tu, com o teu eterno sorriso traquinas ao cantinho da boca, aproximas-te e deixas o cabelo cair-te nos olhos, “olá, tudo bem?”, um beijo á pressa numa das bochechas, olho-te de relance, “estás com bom ar”, sorris contente e ajeitas o cabelo, mordo o lábio inferior e o silêncio instala-se, baixo os olhos e afasto as recordações com um abanão brusco, pegas-me a mão direita, os meus olhos ficam inexpressivos, estás quente, ouço alguém a tossir, passam mais duas crianças pela rua, olhas-me agora intensamente como se os teus olhos quisessem falar, “é melhor ir andando”, digo eu apressadamente, recuo dois passos sem te olhar, soltas-me a mão, o teu olhar foge, “vemo-nos por ai”, pões as mãos nos bolsos e fixas os olhos no chão, tão árido como tu, o “vemo-nos por ai” fica-me a latejar na cabeça… olho para o relógio de pulso e já são três-horas, tenho a iniciativa de me despedir, olho-te com brevidade e dou mais dois passos para trás.
senti o teu olhar, pesado e sisudo, perseguir-me enquanto me afastava.
foi naquele momento que tive a certeza que voltaria a ver de novo o teu cabelo despenteado e o teu olhar de garoto, fiquei certa que assim seria.
sei, neste mesmo instante, que apesar de tudo, nada iria mudar. continuarias com o teu cabelo despenteado, com esse olhar maroto e esse sorriso ao canto da boca…continuarias a ser o mesmo, e eu..eu estaria sempre aqui, á espera de mais um encontro ocasional, preparada para te encontrar, assim de rompante, te achar, e pronta para te perder e dizer que tinha que ir “andando”…e nos veríamos “por ai”.
porque, por mais que quiséssemos ou não…acabaríamos sempre por nos encontrar e voltar a perder...foi sempre assim e nada vai mudar.

(eu acho-te ao virar duma esquina, e tu perdes-me num abrir e fechar de olhos.)

17 maio 2009

Este é Romeu, o tirano impiedoso.


«Encostei-me á parede, num acto de altivez.
Era mágoa nas janelas, a assombração estava no chão e o pavor, esse, estava em mim.
Roguei-te inúmeras pragas…lancei-te maldições e sorri no ímpeto da cólera.
Dá-me gosto ver-te prantear…afoga-te mais uma vez, este é o nosso circo, tu és o gladiador e eu a fera mortífera.
Cravo-te as mãos no coração e digo-te que “não”, desta vez eu não me deixo levar.
Imploras a vida com o teu olhar, choras por um pedaço de ar e fazes-te vingar.
Sentes o céu a quebrar?
Cais no chão…é o peso da dor, é o peso…é o peso cortante do desfecho.
Eram paredes cheias de agonia, o suor do sofrimento escorria por ali abaixo.
Tens a alma na lama, a vitória sempre foi dos bárbaros, dos mais fortes, daqueles que aguentam com muros em cima.
Sacrifica o teu corpo! Mostra que vales o que dizes, tortura as tuas capacidades.
Vá lá, quero ver-te mendigar como um pobre pedinte que não tem onde cair morto.
Entre panos vestidos de vermelho, são os toques da carne, os rasgos da pele, os bramidos de dor que me dão prazer.
Esfrego esses macios cabelos pelo chão e delicio-me com aquele odor.
Rasteja pelas paredes, que eu quero ver.
Esta é a minha raiva de ti.
Caceia-me a sede, tenho sede, quero beber dessas gotas que caiem dos teus olhos.
Sugo-te a alegria de um modo feroz.
Tentas fechar o teu corpo e fugir.
Esta minha secura de coração é nefasta.
Sabes que é só mais uma farsa para aliviar o sentimento fastidioso da tua ausência.
É a frustração do “não poder fazer nada”, do,”já nada pode ser feito”.
Sabes que é só um disfarce…sabes que estas artimanhas são emboscadas de impostor.
Esta minha sanguinolenta alma não corresponde ao meu medo egoísta.
Sinto-me cruel e seco, engano-me a mim próprio e riu-me da minha demência.
Continuas a destruir tudo o que há de bom em mim, este é o meu ódio de ti.
Porque no final…”o chão que pisas sou eu”. »

25 abril 2009

Tudo isto se resume a isto.


“Quando acordei senti o cheiro dela e lembrei-me do seu pestanejar ao anoitecer.”


[Eu não era egoísta.
Era apenas só mais um…sonhador]

Não eras igual a ninguém, eras mais, e isso incomodava-me de uma maneira imoderada.
Comecei a ficar com a cabeça cheia de ti…
Não sei bem porquê, de repente já eras um oceano e eu um simples peixinho perdido no teu mundo.
Eras desprendida, conseguis-te eclipsar-te num ápice e deixar-me assim, inconsolado.
Senti uma terrível tristeza…e um abandono.
Afinal quando é que me irias deixar abrir o teu coração e contar o que te inquietava.
Eu queria ajudar-te, amparar-te! Estive sempre ao teu lado…mas isso não mudaria nada, pois não?
Continuavas a fechar-te na tua concha, não me deixavas respirar do teu ar, querias que me fosse embora…querias ficar só…no teu, triste e apático mundo.
A tua vida estava-se a tornar miserável, e sabes que mais? A tua miséria queria apoderar-se da minha ilusória esperança…conseguiu? Infindavelmente.
Aconteceu tudo numa vertigem, quando dei por mim, já tinhas deixado um recado no meu coração…
Tinha medo de ficar demasiado perto de ti, queria entregar-me ao silêncio, fugir do perigo que o meu coração sentia.
Mas já era tarde.
Percorri inúmeros caminhos ao teu encontro…
Chamei pela tua alma…gritei por ela com sofreguidão.
Esse teu fascínio indeciso dava cabo de mim!
“Queria estar contigo e afastar-me para sempre”.
Esqueceste a pouco e pouco o meu amor.
Já nem sequer lhe davas valor.
Eu fiquei cansado, malogrado, desfeito…tornei-me o pior dos infelizes.
O vazio que deixas-te em mim com a tua ausência era mortal.
Não te pedi que deixasses de ser quem eras, apenas queria fazer parte disso.
Deixaste-me ao frio na solidão…desprotegido e só!
Era tudo tão claro, que já nem a escuridão existia.
Afinal de contas, eu não era nenhum herói, nem sequer um guerreiro.
Era um mero e destroçado …lutador, rendido e desfeito.


Porque eu sei o que sentias.
Sinto…muito.
O medo é mortífero.
Apodera-se do raciocino e dos sentimentos.
Hoje eu peço desculpa, hoje eu dou valor.
Mas hoje…hoje é tarde.

12 abril 2009

Baladas da In-consciência


Percorri o corredor e deixei-me levar pelo ambiente alheio…
Via rapazes a entrarem pela porta das urgências, ouvia gritos de agonia, famílias desesperadas na sala de espera, velhinhas desorientadas nas enfermarias, cheirava-me a angústia, médicos com feições de mármore, crianças a pedirem um sorriso, homens em macas desfeitos, alvoroço e inquietação…ouvia mais uma vez um choro inerte e dolorido…
Nunca gostei de hospitais…vinha-me sempre á memória um calvário de esperanças, talvez já em cinzas.
Que lugar horripilante era aquele…tão hostil e atroz.
Sinceramente, eu não queria estar ali…
Acabei por ser arrastada pela minha pouca motivação e entrei no consultório do médico.
Do outro lado estaria um homem amável e generoso á minha espera, ele iria ajudar-me, iria apoiar-me e consolar-me.
“- Bom dia!” – o médico levantou-se da sua cadeira, estendeu-me a mão e sorriu-me com doçura.
Sentei-me na cadeira que me indicou e pousei os meus olhos nos seus, sem nada dizer.
Tinha um rosto invulgar, mas bastante afectuoso, até a sua bata branca me transmitia serenidade.
Conseguia notar uma certa preocupação no seu olhar, eu sabia muito bem o que esperar.
“ – Vejo que hoje está bem disposta.”
Acenei afirmativamente.
“ – Já fiz mais alguns exames…”
“ – Sim, eu já sei que tem andado a melhorar a passos largos.”
Voltou-me a sorrir, desta vez mais calorosamente.
Decidi retribuir o sorriso, forçosamente.
Apertei uma mão contra a outra, com muita, muita força até doer.
Não conseguia esconder todo o meu medo, era demasiado penoso…
“ – Tem que continuar a ser forte. Não pode deixar que esta doença se volte a apoderar de si.”
Olhou-me nos olhos e manteve-se sério.
Eu escondia a minha inquietação…olhava ao meu redor, aquele lugar era definitivamente estranho.
Janelas sem vida…desenhos asquerosos nas paredes pálidas…odores a sofrimento vindos do exterior…tudo aquilo metia medo e dava vontade de fugir.
Ele conseguia ler os meus pensamentos, estava atendo a cada gesto…ténue e sem remorsos, pressentia a minha dor, o meu medo…e sofria comigo.
“ – Eu tento, cada dia da minha vida, eu quero…muito. Eu sei que a minha doença é grave…”
Inspirei fundo e enfrentei a realidade.
Esconder, omitir, disfarçar, renunciar, mentir…já nada disso resultaria.
“ – Tem sido uma grande lutadora. Só tem que continuar a lutar com todas as suas forças. Sabe que se pode afastar deste abismo…ele não é eterno.”
Não saberia ao certo se isso seria verdade.
A dor era febril e manipulava-me agora o coração.O médico aconchegou as suas mãos, grandes e secas, ás minhas, pequenas e frágeis.
“ – Lute, seja forte…é por si. Não é por mais ninguém.”
“ – Eu não quero que esta doença se apodere de mim, me absorva e dê cabo de mim…eu não quero.”

A nostalgia abria-me agora as cicatrizes outrora já tapadas e cerradas com sacrifício.
Ele ouvia-me com extremo cuidado, embevecendo cada palavra minha.
Eu vi-o um pouco perdido e estonteado nesta luta…queria dar mais de si, queria dar tudo de si, mas ás vezes nem o “tudo” é suficiente.
“ – Seja forte, seja forte como sempre foi. Não desista!”

"o amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura..."
03:00 da manhã…acordei sem qualquer vestígio de um lençol…ou de uma almofada.
Nada disto é efémero… Tu és a minha Doença, sempre foste o meu cancro.
Não há comprimidos nem cirurgias que me salvem de ti…
Queres tomar conta do meu ser...e consumir-me o que me resta.
Mas isso eu não vou deixar...vou tomar um analgésico e amanhã já nem me lembro, amanhã já não haverá dor…nem doença sequer.

explosions in the sky - inside it all feels the same