Percorro aquelas ruas desconhecidas, em busca de um pouco de sossego.Quero esquecer-te, nem que por breves instantes.O sol ilumina-me os fios de cabelo, não há ninguém ao meu redor, sinto uma leve brisa congelar-me as pernas, o dia escurece então.Preciso de me descolar de ti, porque raio continuo a sentir que ainda somos o que éramos?!Decido andar, não quero permanecer ali, perdida e desamparada…quero encontrar um lugar.Lugar esse que me faça esquecer do que um dia foste e já não és.O vento insiste em perdurar, abraço o meu corpo em busca de algum calor.
“Talvez já tenhas encontrado esse lugar…essa “casa” que te ampara e te protege, casa essa que te faz esquecer o outrora…talvez já não tenhas razão para procurar mais…"
"Preciso que me continues a deixar este teu cheiro nas minhas roupas, nas minhas mãos. É como trazer um pedaço do teu amor comigo, pra me fazer sorrir à noite e chorar de alegria."
«O silêncio que nos rodeia pesa como chumbo. O dia está cinzento, dentro de mim escorre uma cinza, uma espessa amargura, uma treva onde mergulho o pensamento e tudo se turva.»
Apenas silêncio…nada do outro mundo.
Sinto o inesperado e estranho calor de um conhecido enigmático.
Acaricia-me o rosto, adivinho a sua presença junto a mim, reconheço aquele seu cheiro, sinto o tremer das suas mãos e ouço o bater descontrolado do seu coração.
Ainda me pergunto se devo abrir os olhos, nem que seja uma última vez, um último olhar, um último toque…
Não fará qualquer diferença, prefiro limitar-me ao silêncio, para quê gastar palavras, para quê despertar sentimentos envelhecidos, enquanto se pode arquivar tudo na poeirenta caixa do passado.
Apetecia-me dar-te a mão e permanecer assim, de olhos bem fechados, sem que o pensamento vagabundeasse e tentasse abrir as portas daquele tão antigo armário.
Limito-me a sentir a respiração que me acompanha, a saborear o conforto ilusório e inconsequente de não pensar, de nem sequer sentir…
Tenho lágrimas que me molham o coração por dentro, sinto água a pingar pelo meu corpo.
Doseamos os gestos, saboreamos o toque…uma mão aberta, dois dedos, os olhos que se esquivam por detrás de um espelho, espelho esse que permanece estático e dúbio.
Nada de mais próximo, nada de mais distante do que duas almas que se questionam no sucumbir da realidade.
Numerosos perigos rondam estes pensamentos, sedentos de palavras. O medo, o desgaste das dúvidas, as pequenas coisas que ficam por dizer. Os corações estão cansados, não querem seguir para nenhum lado.
Permanecemos mudos, travamos conversas no vácuo, daqueles conversas que se fazem com o olhar e com os gestos.
Os nossos dedos, que se tocam com delicadeza, falam entre si.
Os nossos olhos, que agora se abrem, comunicam com graciosidade.
É por isso que quando estás presente as palavras são meros adereços, coisas sem qualquer importância ou gravidade.
Ficamo-nos pelo enlear inóspito das dúvidas…talvez um dia sejamos capazes de proferir o que nos vai na alma…talvez um dia sejamos capazes de enfrentar os muros do outrora, talvez um dia queiramos discutir e pôr um fim ás nossas hesitações, talvez um dia…
«Encostei-me á parede, num acto de altivez. Era mágoa nas janelas, a assombração estava no chão e o pavor, esse, estava em mim. Roguei-te inúmeras pragas…lancei-te maldições e sorri no ímpeto da cólera. Dá-me gosto ver-te prantear…afoga-te mais uma vez, este é o nosso circo, tu és o gladiador e eu a fera mortífera. Cravo-te as mãos no coração e digo-te que “não”, desta vez eu não me deixo levar. Imploras a vida com o teu olhar, choras por um pedaço de ar e fazes-te vingar. Sentes o céu a quebrar? Cais no chão…é o peso da dor, é o peso…é o peso cortante do desfecho. Eram paredes cheias de agonia, o suor do sofrimento escorria por ali abaixo. Tens a alma na lama, a vitória sempre foi dos bárbaros, dos mais fortes, daqueles que aguentam com muros em cima. Sacrifica o teu corpo! Mostra que vales o que dizes, tortura as tuas capacidades. Vá lá, quero ver-te mendigar como um pobre pedinte que não tem onde cair morto. Entre panos vestidos de vermelho, são os toques da carne, os rasgos da pele, os bramidos de dor que me dão prazer. Esfrego esses macios cabelos pelo chão e delicio-me com aquele odor. Rasteja pelas paredes, que eu quero ver. Esta é a minha raiva de ti. Caceia-me a sede, tenho sede, quero beber dessas gotas que caiem dos teus olhos. Sugo-te a alegria de um modo feroz. Tentas fechar o teu corpo e fugir. Esta minha secura de coração é nefasta. Sabes que é só mais uma farsa para aliviar o sentimento fastidioso da tua ausência. É a frustração do “não poder fazer nada”, do,”já nada pode ser feito”. Sabes que é só um disfarce…sabes que estas artimanhas são emboscadas de impostor. Esta minha sanguinolenta alma não corresponde ao meu medo egoísta. Sinto-me cruel e seco, engano-me a mim próprio e riu-me da minha demência. Continuas a destruir tudo o que há de bom em mim, este é o meu ódio de ti. Porque no final…”o chão que pisas sou eu”. »
“Quando acordei senti o cheiro dela e lembrei-me do seu pestanejar ao anoitecer.”
[Eu não era egoísta. Era apenas só mais um…sonhador]
Não eras igual a ninguém, eras mais, e isso incomodava-me de uma maneira imoderada. Comecei a ficar com a cabeça cheia de ti… Não sei bem porquê, de repente já eras um oceano e eu um simples peixinho perdido no teu mundo. Eras desprendida, conseguis-te eclipsar-te num ápice e deixar-me assim, inconsolado. Senti uma terrível tristeza…e um abandono. Afinal quando é que me irias deixar abrir o teu coração e contar o que te inquietava. Eu queria ajudar-te, amparar-te! Estive sempre ao teu lado…mas isso não mudaria nada, pois não? Continuavas a fechar-te na tua concha, não me deixavas respirar do teu ar, querias que me fosse embora…querias ficar só…no teu, triste e apático mundo. A tua vida estava-se a tornar miserável, e sabes que mais? A tua miséria queria apoderar-se da minha ilusória esperança…conseguiu? Infindavelmente. Aconteceu tudo numa vertigem, quando dei por mim, já tinhas deixado um recado no meu coração… Tinha medo de ficar demasiado perto de ti, queria entregar-me ao silêncio, fugir do perigo que o meu coração sentia. Mas já era tarde. Percorri inúmeros caminhos ao teu encontro… Chamei pela tua alma…gritei por ela com sofreguidão. Esse teu fascínio indeciso dava cabo de mim! “Queria estar contigo e afastar-me para sempre”. Esqueceste a pouco e pouco o meu amor. Já nem sequer lhe davas valor. Eu fiquei cansado, malogrado, desfeito…tornei-me o pior dos infelizes. O vazio que deixas-te em mim com a tua ausência era mortal. Não te pedi que deixasses de ser quem eras, apenas queria fazer parte disso. Deixaste-me ao frio na solidão…desprotegido e só! Era tudo tão claro, que já nem a escuridão existia. Afinal de contas, eu não era nenhum herói, nem sequer um guerreiro. Era um mero e destroçado …lutador, rendido e desfeito.
Porque eu sei o que sentias. Sinto…muito. O medo é mortífero. Apodera-se do raciocino e dos sentimentos. Hoje eu peço desculpa, hoje eu dou valor. Mas hoje…hoje é tarde.