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01 novembro 2010

A Vida

"A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas."

Nuno Júdice

03 maio 2010

A cidade é um chão de palavras.

"A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há."

José Carlos Ary dos Santos

07 fevereiro 2010

E por vezes...


"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos."


David-Mourão Ferreira


…Por vezes é tudo isto e muito mais.

Por vezes...todos estes sentimentos acabam por nos invadir.

03 novembro 2009

Coisas que nos fazem pensar

Não sei bem porquê mas esta temática do pensamento e da vida tem andando a percorrer a minha mente.
Deve ser por causa de Fernando Pessoa...ele põe-nos a pensar nestas coisas: viver, sonhar...inconsciência, consciência...esperança, desilusão...sentir, pensar...depois quanto mais penso, menos conclusões tenho!


Já não Vivi, Só Penso


"Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços. "

Encontrei este belo poema de Fernanda de Castro
(adoro os poemas desta senhora!)

O pensamento...um absurto mistério, ou um simples sarilho?

(...)


27 maio 2009

Hoje apeteceu-me...

Andei por casa a remexer os livros, a cheirar-lhes o pó do passado, a passar-lhes os olhos pelas letras, a bisbilhotar as histórias e os sonetos que me inspiram fantasias.
Tacteei cada livro que estava na estante, percorri-os, um a um, com o meu olhar atento e feroz, de repente…parei naquele, capa bege, letras embaciadas pelo tempo, folhas creme, cor de Primavera… Sonetos de Florbela Espanca…folheei, folheei, …

"Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quirneras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão;
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...

Não 'stendas tuas asas para o longe..
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela,a soluçar..."



Isto deixou-me maravilhada, fixei os meus olhos, deixei-os ali, no encanto da magnificência da poesia...tudo tão profundo… fascinante…intenso…sublime!


Florbela Espanca, Anseios.

19 fevereiro 2009

Apontamento


"A minha alma partiu-se como um vaso vazio.

Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela. São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali."

Álvaro de Campos

É impossível ficar indiferente a este poema e a tantos outros.
É por isso que Álvaro de Campos é o meu Heterónimo favorito de Fernando Pessoa, simplesmente fascinante *-*
Porque a nossa vida é tudo isto, baseia-se no tédio, no cansaço…na dúvida, na procura…mas afinal o que somos nós? Um “espalhamento de cacos” ?
Ou talvez um “vaso vazio”…?
Quiçá, nunca saberemos qual é o nosso “lugar” e muito menos o nosso “papel”…