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16 outubro 2009


«Viver todos os dias Cansa».



"É tão estranha a sensação de não viver. De estar só à espera que aconteça. Olhar para trás e ver que em quase meio ano nada aconteceu. Pelo menos comigo. (...) eu estou em stand by. (...) Como os passageiros à espera de um outro destino naquelas salas de aeroporto que são onde melhor se ouve a solidão de estarmos tão perdidos assim como eu aqui, que por momentos nos transformamos em verdadeiros fantasmas, sem sombra sequer, sem nada. Até acontecer alguma coisa. Vai ter de acontecer alguma coisa. E não acontece."


Pedro Paixão in «Viver todos os dias Cansa».

12 agosto 2009

Uma boa companhia de Viagem.

Aqui estou eu, de volta ao meu cantinho.
Estas duas semanas foram tão preenchidas, sempre a andar daqui para ali, dali para acolá, mas cá estou, feliz e contente!
É claro que tive que levar um livrinho comigo, e decidi levar “Uma Casa na Escuridão”, do José Luís Peixoto, acabei logo de o ler naquelas semaninhas.
Eu adoro os livros do José Luís Peixoto!
Sempre que os acabo de ler sinto-me tão imensa!
Deixam-me completamente sem palavras, fico a ver o mundo com outros olhos, a vida já tem outro sentido, as horas passam-se de forma diferente, parece que tudo se transporta da escrita para a realidade.
Este livro não ficou nada atrás dos anteriores, bem pelo contrário, deixou-me mais uma vez completamente encantada.
“Uma Casa na Escuridão” é um belíssimo romance poético, com uma bela sonoridade e visualismo que nos deixam maravilhados.
As palavras são tão melodiosas e agradáveis, que nos confortam e apaziguam.
Conseguimos presenciar a junção do belo e do horrível, da paz e o sossego, do amor e do ódio, da ternura e da frieza…tudo isto se encaixa perfeitamente.
Somos surpreendidos com algo novo: algo que nos encanta, e nos toca profundamente.
José Luís Peixoto, conta-nos a história de um jovem escritor que vive um amor irrealizável.
Este jovem escritor apaixona-se por uma espécie de personagem que ele cria dentro do seu interior, e só consegue vê-la e senti-la através da escrita.
É dentro da “casa na escuridão” que toda a acção se desenrola.
As noites passadas a escrever, tentando comunicar e ver a sua misteriosa amada, a sede da escrita, a vontade, o amor, o sofrimento, a esperança…
Somos deliciados com todo este enredo, as belas “confissões” de amor, o toque, o olhar, as palavras…conseguimos aperceber-nos do imenso poder das palavras.
Mas para além de toda esta harmonia idealizada, para além deste amor tão puro e verdadeiro, temos a crueldade, a dor, o sofrimento, a miséria…
Toda esta obra é recheada de luz…e de escuridão.
Dentro de uma casa, onde já não resta esperança, nem sequer amor…resta-nos o medo, o desalento…a escuridão.
Adorei, adorei, adorei…e adorei!
Fica aqui uma sugestão para este Verão.

«E, entre o fogo, atravessando as chamas, vi o rosto daquela que desaparecera dentro de mim. O seu corpo. O seu vestido leve a moldar-lhe cada forma do corpo. De encontro às chamas, os seus cabelos longos e lisos. O seu rosto: os olhos, os lábios. Olhou para mim. Eu vi os seus olhos parados em mim. Estava diante de mim. Nunca a distância que nos separara havia sido tão curta. Eu não tinha braços para lhe estender. Eu só tinha os meus olhos para a abraçar. Os nossos olhos eram atravessados pelo corpo fino das chamas que se levantavam no quarto. Ela disse a tua vida foi muito importante. Eu amava-a ainda. Ela disse deste a tua vida para entender que o amor é impossível. O amor é o sangue do sol dentro do sol. Algo dentro de qualquer coisa profunda. Ela disse desta a tua vida para entender que o amor é a solidão. Ela disse estavas certo desde o início, o amor é tudo o que existe.»

05 abril 2009

"Tudo o que temos cá Dentro."

«…apetece-me encontrar-te de novo no caminho.»

[Não houve caminho nenhum, Rita, tenho sonhos cruéis, fugi do corpo que me deste, se me ouvires chamar não venhas, com certeza não vou chamar-te, deixaste-me sozinho a chorar a dor de cada um de nós…]


Já alguma vez leram um livro e sentiram que ele passaria a fazer parte de vocês?
Que ele se tinha tornado algo especial...único...quase humano!
Foi exactamente isso que senti quando li este livro.
Já o li umas 20 vezes, e nunca me canso...
Um dos livros mais lindos que se pode encontrar por ai…
Foi um dos poucos livros que depois de ler senti realmente me conseguiu abstrair da realidade e entrar no mundo onde o sentir é o expoente máximo, onde eu conseguia criar uma ligação com as personagens e sofria com elas.
É verdade!Este livro teve o dom de conseguir fazer-me sentir algo...transformar as palavras em sentimentos, melodias, sons, gestos, conseguir transpor o abstracto e torna-lo realidade, tocar-me e brindar-me com a incrível experiência de sentir e fazer parte da história...ser tocada por algo que me fez estremecer de dor...de felicidade...de alegria…de mágoa…
Conseguir admitir que um livro consegue despertar coisas incríveis em nós, de nos deixar pasmados...incrédulos...rendidos…
Tocou-me com toda a emoção que alguma vez possamos imaginar…foi envolvente, empolgante, mágico, emocionante…explora o mais profundo que há em nós, o que lá encontramos, o que lá procuramos enterrar, o que somos, o que preferimos ser, o que pensávamos ser e não somos…mas sim o que temos cá dentro…"Tudo o que temos cá dentro".

Resumidamente, este livro conta-nos a história de dois jovens...uma relação…dois pontos de vista completamente opostos.
Nuno e Rita são aqui o alvo das atenções.
Nuno é um jovem como outro qualquer, sem nenhuma característica especial que o possa diferenciar dos outros, com alguma pressa de viver, de experimentar, de conhecer, antes que o momento passe.
Rita, é uma rapariga que se envolve muito na vida, que a agarra com toda a intensidade e que cedo se apaixonou de forma irremediavelmente marcante.
Os seus caminhos cruzam-se…
Nuno, questiona-se sobre os seus sentimentos, é um incompreendido que tem medo de compromissos e que quando a coisa começa "a ficar séria" tem tendência a fugir. Aparentemente, é o seu próprio alvo, o alvo das suas intermináveis dúvidas, mas não estará apenas a descobrir-se de forma igualmente irremediável?
Rita, segue em frente sem pensar nos “porquês”, quer deixar-se levar pelo seu coração e lutar por aquilo em que realmente acredita.
Uma vez caminhos cruzados…consensos formados.
Mas será que somos capazes de admitir que fomos “derrotados”, sem uma pitada de orgulho nas entrelinhas?
Quando pensamos demais e achamos que nós somos os donos de nós próprios, dos nossos sentimentos, dos nossos actos e nos esquecemos do coração…do dito cujo, destino, que nos acaba por pregar partidas perigosas e das outras pessoas, essas que nos dizem alguma coisa, e a quem devemos algo. Será que somos capaz de lutar? Ou vamos ficar apenas pela mentira?...

Bem...leiam, porque vale a pena :D
Tudo o Que temos cá Dentro – Daniel Sampaio